rosacordetejo

Algumas das publicações: ‘A Criança Suspensa’, Prémio Ferreira de Castro, de ficção narrativa, da Câmara de Sintra, edição da Câmara Municipal de Sintra;’O Corpo e a Tela’, Hugin; ‘O Aniversário’, Prémio Revelação APE/IPBL 1994, Ficção, Difel ; ‘A Compreensão da Lua’, Hugin; ‘O Arquitecto’, Hugin; ‘Venite In Silentio’, Unicepe, Porto; ‘Contos de Azul e Terra’, romance, em co-autoria com Raquel Gonçalves, Hugin.

Quarta-feira, Março 16, 2005

Da rosa ao riso

Por continuar com problemas técnicos (podia ser falta de jeito, mas não é) deixo de escrever neste blog; remeto definitivamente os/as blogonautas para o meu outro blog, esse activo e sem problemas:

http://risocordetejo.blogspot.com/

Obrigada e até breve
Riso

Segunda-feira, Março 14, 2005

OFICINA DE ESCRITA

Alguns elementos para uma ficção surrealista:
- um país a arder em pleno Inverno
- uma partida de ping-pong com a fotografia de um político
- as folhas de um discurso que se autonomizam, tomam e vida, aparecem e desaparecem
- um pré-ministro que aumenta impostos antes de o governo tomar posse
- um governo que toma decisões quando deixa de existir
- uma câmara municipal da capital de um país refúgio para políticos sem-abrigo

Estado do rio:

O rio não existe; apenas imensa nuvem entre margem e céu.

Sábado, Março 12, 2005

Ainda Sebastião, ainda o Império

Se o sonho de Sebastião, o rei, era o domínio, o sonho de Sebastião, o menino, era o nevoeiro, de cujo ventre nascemos. O sonho do nevoeiro é o sonho de fusão, é a criação do reino dentro de cada um para ganhar o mundo, mas sem expansionismo, sem ocupação; é um ganhar que passa pelo entendimento e pelo desprendimento.
É em nós que começa o Império, é em nós que termina. O que nunca aconteceu, por isso sempre se nos escapou por entre os dedos; sempre vimos o Império fora, abandonámo-nos para dominar. Falta acontecer o domínio sobre nós, coisa que faltou a Sebastião. Como poderia vencer fora dele, se tanta dificuldade tinha em vencer-se a si mesmo e à sua raiva, aos ataques de fúria que o tinham sob domínio?
Mas é a nossa história e isso não podemos negar. Por muito que nos desagrade. Apenas… aprender.

Minha lã, meu amor?

Todos conhecem as campanhas publicitárias da Benetton: chocantes, lúcidas, denunciadoras.
Poderia ser assim a próxima campanha:
A cena passa-se na Austrália. A lã é retirada às ovelhas pelo seguinte e ultra-moderno processo: arranca-se a lã aos animais juntamente com a pele (por esfolamento) a que vêm agarrados pedaços de carne. Os animais ali ficam em agonia até acabarem por ser mortos. O que é uma sorte. Esta lã é excelente, o processo é rápido e barato. Só vantagens.
Não sei se os cartazes indicarão que essa lã é adquirida pela Benetton para fabrico dos seus produtos.
Em 2005, num mundo dito civilizado. Não é no Iraque nem num sítio desses moralmente desvalorizado.
E continuamos sentados nas nossas cadeiras giratórias. Giram tanto, as nossas cadeiras, dão-nos uma visão tão ampla que deixamos de ver. E de saber. E de querer saber. É como se não víssemos nada. E a carne de ovelha dá um excelente ensopado. Com banda sonora: os fracos balidos dos animais torturados. Para quem desejar. Confortavelmente, elegantemente vestido com as cores da Benetton.
Será a mais chocante campanha publicitária de sempre. Ou talvez não. A crueldade começa a ser banal.

Estado do rio:

A meio do dia:
Igual ao céu: azul nublado.

Estado do rio:

De manhãzinha:
Em forma de branco misterioso, oculto, presente. Silencioso repouso.
Névoa desdobrada, prolongamento de mim.
Latência.

http://risocordetejo.blogspot.com/

Por ter tido problemas técnicos com este blog, criei
http://risocordetejo.blogspot.com/

Agora tenho dois, este e o outro... mantê-los-ei... até ver.
R

Sexta-feira, Março 11, 2005

Boletim do rio

A água eleva a luz, o nevoeiro transporta o rio até às nuvens, as nuvens até ao céu até ao sol.

Quinta-feira, Março 10, 2005

Relatório do céu

A tela que um dia pintei
num sonho
as cores não existem.

O estado do rio

Prata ardente.

Quarta-feira, Março 09, 2005

Relatório do Tejo

Oculto, sob um céu ainda azul de pós poente, limitado pelas luzes mais além.

A sinédoque, o eu e Natália Correia

As pessoas são, frequentemente, sinédoques de si mesmas. Porque assumem para si, que são, exclusivamente, aquela imagem que dão aos outros, logo, que os outros têm delas. A sinédoque é a figura literária em que se toma a parte pelo todo. Somos muito mais do que isso, mas nem sempre é agradável ver algumas das outras partes que não mostramos aos outros… e por isso, nem a nós. Para nos tornarmos verdadeiramente adultos, ou “nós”, digo, completos, não há outra forma se não começar por aí, por essa zona de sombra, por essa zona não perfumada, por essa zona áspera, por essa zona dissonante, por essa zona amarga do eu. A alternativa seria permanecermos Peter Pan’s, espécie de suicídio lento do “eu”, como diz Natália Correia:
“[…] Pr’a organizar já o enterro/ do nosso corpo mais adiante.”

Terça-feira, Março 08, 2005

A sombra e o sorriso

É de noite que nos assalta a sombra, mas é também de noite, no meio do sonho, que vejo, como espelho, o mais feliz e pacífico e inesquecível sorriso que nunca o dia, na sua imensa luz, me mostrou.
É na sombra que resplandece a intensa luz. O negativo ou a prova que antecede a obra.

Diz o sapateiro ao rei

Cinema Monumental, Sessão especial do filme ‘O Quinto Império- Ontem como Hoje’, de Manoel de Oliveira, com a presença do realizador e a sala cheia de jovens, alunos de cinema e de outras artes.

Do filme, retenho os arquétipos a que, até um rei, nascido como um predestinado, não se pode furtar, como mortal.
Vacila o rei entre a loucura e a maior lucidez, quando afirma que a luz do dia é falsa e esparsa” porque só “deixa ver o que está patente”, ou quando afirma que na verdade não decidimos, “apenas obedecemos”. A quê? A quem? Pergunto. A nós mesmos? Àquele que de nós não conhecemos?
Num diálogo comovente e intenso com o seu conselheiro, o sábio sapateiro, que tem sobre ele um ascendente que nenhum dos conselheiros consegue, é dito “a gente sabe muita coisa que nem sabe que sabe”; e é essa a nossa tragédia: nem sequer sabemos que não sabemos, o que já seria um bom começo. Somos, para nós mesmos, um eterno encoberto, o eterno desconhecido.
Diz o sapateiro ao rei:
“- Se pudesses rir das tuas fraquezas serias mais sereno porque mais forte.”
O rei não sabe rir das suas fraquezas porque não as conhece, não conhece a sombra, porque confunde as vozes de dentro com vozes de fora. Um ser tão confuso não ri.
É, como se diz no filme, um rei que nasceu “ferido de morte”: e não é esta uma rigorosa metáfora do ser humano? Não nascemos nós todos assim? Enfim, talvez ele estivesse à morte predestinado mais cedo que os mortais comuns, esse infeliz que em função da morte viveu e nem a morte pôde ter, tendo-se transformado em sombra de um Império por acontecer.
Este rei, a quem a raiva frequentemente enfraquecia, torna-se, depois que se transformou em névoa, o mais forte mito do Império ao longo dos tempos sonhado.
Assim entra para sempre na noite, essa que tanto o atraía como o assustava. Entrando na noite, foi na nossa noite que entrou. Já nada pode fazer por si. Fica-nos a responsabilidade, em cada nossa noite, por ele. Por nós, naquele ele que somos.
 
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