Cinema Monumental, Sessão especial do filme ‘O Quinto Império- Ontem como Hoje’, de Manoel de Oliveira, com a presença do realizador e a sala cheia de jovens, alunos de cinema e de outras artes.
Do filme, retenho os arquétipos a que, até um rei, nascido como um predestinado, não se pode furtar, como mortal.
Vacila o rei entre a loucura e a maior lucidez, quando afirma que a luz do dia é falsa e esparsa” porque só “deixa ver o que está patente”, ou quando afirma que na verdade não decidimos, “apenas obedecemos”. A quê? A quem? Pergunto. A nós mesmos? Àquele que de nós não conhecemos?
Num diálogo comovente e intenso com o seu conselheiro, o sábio sapateiro, que tem sobre ele um ascendente que nenhum dos conselheiros consegue, é dito “a gente sabe muita coisa que nem sabe que sabe”; e é essa a nossa tragédia: nem sequer sabemos que não sabemos, o que já seria um bom começo. Somos, para nós mesmos, um eterno encoberto, o eterno desconhecido.
Diz o sapateiro ao rei:
“- Se pudesses rir das tuas fraquezas serias mais sereno porque mais forte.”
O rei não sabe rir das suas fraquezas porque não as conhece, não conhece a sombra, porque confunde as vozes de dentro com vozes de fora. Um ser tão confuso não ri.
É, como se diz no filme, um rei que nasceu “ferido de morte”: e não é esta uma rigorosa metáfora do ser humano? Não nascemos nós todos assim? Enfim, talvez ele estivesse à morte predestinado mais cedo que os mortais comuns, esse infeliz que em função da morte viveu e nem a morte pôde ter, tendo-se transformado em sombra de um Império por acontecer.
Este rei, a quem a raiva frequentemente enfraquecia, torna-se, depois que se transformou em névoa, o mais forte mito do Império ao longo dos tempos sonhado.
Assim entra para sempre na noite, essa que tanto o atraía como o assustava. Entrando na noite, foi na nossa noite que entrou. Já nada pode fazer por si. Fica-nos a responsabilidade, em cada nossa noite, por ele. Por nós, naquele ele que somos.